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As novas elétricas
 


| 17/03/2010 | Valor Econômico

    Por Josette Goulart, de São Paulo
    17/03/2010
 

Uma nova leva de empresas de energia está chegando à bolsa de valores. Três grupos que venceram os últimos leilões do governo federal - e se comprometeram a investir cerca de R$ 5 bilhões nos próximos três anos - buscam recursos para financiar seus projetos. Em comum, a companhia Venti, com sede em Luxemburgo e dona da empresa argentina Impsa, e as empresas brasileiras Renova Energia e Multiner, têm o fato de serem pré-operacionais na atividade de geração elétrica. Todas também têm em comum planos de crescer em geração de energia eólica, principalmente Renova e Venti, que devem marcar a estreia da energia renovável no mercado de capitais.

As ofertas públicas iniciais de papéis da Renova e da Multiner já estão em análise na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A Venti, por enquanto, pediu apenas o registro de companhia aberta. Em estágio mais avançado está a oferta dos certificados de ações da Renova, que encerrou ontem o período de reserva pelos investidores. Vencedora do leilão de energia eólica promovido em 2009, em que se comprometeu investir R$ 1 bilhão para erguer 14 parques eólicos capazes de gerar 270 megawatts, a empresa vai servir como um teste para mostrar o apetite dos investidores a esse tipo de oferta.

A tendência é que outras companhias de geração de energia busquem recursos por meio de oferta de ações, retomando assim o movimento que se iniciou antes de o mercado de capitais se fechar, em 2008. Diversas dessas empresas com projetos de pequenas centrais hidrelétricas ou usinas termelétricas já nasciam com registro de companhia aberta, embora sem ações em bolsa. Os grandes projetos hidrelétricos também nasceram nessa época já pensando na bolsa de valores, como foi o caso da concessionária Santo Antônio Energia e também de Jirau, que juntas são capazes de gerar mais de seis mil MW de energia e estão sendo construídas em Porto Velho.

Mas os planos de lançar ações na bolsa para as duas hidrelétricas ainda não é tão imediato, em função do andamento dos projetos. Já para as empresas de renováveis, o próximo leilão do governo federal, marcado para acontecer em meados deste ano e que vai negociar energia de eólicas, PCHs e biomassa, pode acelerar os planos. Ou até mesmo para empresas que já estão vendendo energia eólica no mercado livre. Um exemplo é a empresa Bioenergy. O presidente da empresa, Sérgio Marques, conta que vendeu 380 MW de energia eólica no mercado livre no ano passado. A venda é importante para garantir o financiamento do projeto com os bancos. Mas na parte de capital próprio a empresa já tem planos para também fazer sua oferta na bolsa.

Quem está voltando a pensar nos antigos planos é a Ersa, do Pátria Investimentos, que há dois anos desistiu de ir à bolsa. A Ersa constrói oito PCHs com capacidade de 100 MW e já tem em operação outras três, que somam 47 MW. Juntos, esses projetos precisavam de R$ 1,1 bilhão em capital e, com o mercado de ações fechado durante a crise global, a companhia teve de buscar alternativas. Primeiramente, um aporte dos próprios sócios e, no ano passado, foi em busca de um parceiro estratégico e fechou sociedade com o Fundo de Investimento em Participações Brasil Energia, que aportou R$ 300 milhões no negócio.

Mas para crescer a companhia pretende colocar em operação seus 570 MW em projetos. Desse total, metade é de energia eólica. De acordo com o diretor financeiro da Ersa, Marcelo Souza, à medida que esses projetos forem saindo do papel, a empresa vai precisar de mais capital. "A vantagem é que quando estrearmos na bolsa não seremos mais uma companhia pré-operacional", diz Souza.

Essa vantagem a que se refere o diretor da Ersa é quanto às incertezas que empresas de projetos, ou seja, que não têm ainda faturamento, proporcionam aos investidores. É ponto de consenso entre os analistas que essas são ações de alto risco, apesar de prometerem bons retornos no longo prazo. A maior experiência desse tipo de empresa na bolsa foi o lançamento das ações da MPX Energia, do empresário Eike Batista, que constrói usinas termelétricas no Nordeste do país. O lançamento das ações foi feito em dezembro de 2007 e rendeu R$ 2 bilhões à empresa. Os investidores, entretanto, tiveram que amargar uma queda de quase 90% no valor dos papéis durante o ano de 2008. A ação já começou aquele ano perdendo. Depois, ensaiou uma recuperação, mas em maio iniciou uma trajetória de queda que só terminou em 2009.

De acordo com um analista, a queda da MPX se deu em parte pela busca de liquidez dos investidores estrangeiros que já se ressentiam da crise, mesmo antes do seu auge, em setembro de 2008. Além disso, os investidores buscavam papéis mais seguros, pagadores de dividendos, o que não acontece com empresas pré-operacionais. Mas no ano passado, as ações da companhia recuperaram boa parte da perda. Subiram mais de 231%. Neste ano, a alta até ontem era de 13,3%. Ainda assim, desde o seu lançamento, em 14 de dezembro de 2007, o valor da companhia caiu mais de 47%.

Entre os principais riscos assumidos pelos investidores que apostam em companhias pré-operacionais de geração de energia está o atraso no cronograma de obras e, consequentemente, no início de geração de receita e dividendos. Esse atraso pode ser ocasionado por vários motivos, seja em função de processos judiciais, de licenciamento ambiental contestado ou não concedido a tempo ou até mesmo de dificuldade para aprovar financiamentos do BNDES. Além disso, nem sempre os sócios dessas companhias de energia são empresários conhecidos como Eike Batista.

Uma empresa que tem projeto parecido com a MPX e que está preparando seu lançamento de certificados de ações é a Multiner. Seus sócios principais são pessoas físicas egressas do mercado financeiro e do próprio setor elétrico. A companhia venceu diversos leilões de energia nos últimos dois anos, além de ter comprado dois parques eólicos vendidos no âmbito do Proinfa (programa de incentivo a energias renováveis do governo federal do início da década). Até 2013 a empresa terá que investir R$ 2,9 bilhões para erguer as oito termelétricas vendidas e os dois parques eólicos.

Voltadas, por enquanto, a projetos de usinas termelétricas, a preocupação da MPX e da Multiner agora é a de diversificar negócios. O presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim, que faz o planejamento dos leilões de energia e da oferta para os próximos dez anos, já disse que as térmicas estão fora do planejamento da expansão do parque gerador deste ano e do plano decenal. O foco será todo em energia renováveis. A Multiner tem uma plataforma de crescimento em outras fontes de energia, mas é na termoeletrecidade que concentra seu portfólio, com projetos nessa área de 4.000 MW.

Esse planejamento do governo federal, focado em renováveis, é bom para as companhias do setor, que podem se beneficiar a longo prazo dessa decisão. A Renova, empresa que tem entre os sócios o fundo InfraBrasil, por exemplo, é focada em energia eólica e foi a maior vendedora no leilão do ano passado. Foi o primeiro para esse tipo de energia, e os projetos vencedores somam cerca de 1.800 MW. Além da Renova, a Venti foi uma das grandes vencedoras. Dona da empresa de fornecimento de aerogeradores e equipamentos para hidrelétricas Impsa, a companhia se beneficia duas vezes. De um lado vende equipamentos, de outro gera energia. A Venti, na parte de geração, ainda é pré-operacional no país, mas tem planos ambiciosos. Investirá cerca de R$ 1 bilhão nos 211 MW que vendeu.





 
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