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As mudanças na matriz energética
 


| 14/01/2010 | DCI



Paulo Ludmer
Quando a matriz energética do mundo se livrará de sua enorme dependência do petróleo e do carvão? Esta é questão vital da humanidade que vem desenvolvendo esforços para entrar em nova era de sustentabilidade. É ingênuo pensar que o bom-mocismo de países ricos do Hemisfério Norte seja exclusivamente fundamentado em crenças ambientais. As potências econômicas - vide União Europeia - assistem ao declínio de seus fornecimentos, antes tranquilos, de hidrocarbonetos, como os do Mar do Norte. Esses países rejeitam a ideia de investir mais no Cáucaso, na Sibéria, no Norte da África e no Oriente Médio. Não convém sonhar com mais oleodutos, gasodutos, portos e refinarias em áreas conflagradas. As gigantescas descobertas no pré-sal do Brasil, da África e Golfo do México somente adiam o abandono da civilização do petróleo. A tranquilidade do presidente da Petrobras com o bom futuro das jazidas de óleos da estatal contracena com a corrida ruidosa pela substituição da combustão. Navios, aviões, caminhões e tratores de agora serão usados até sua depreciação. Mas é uma incógnita a data da introdução de novas tecnologias, fatalidade que nos aguarda na esquina da história.

O mundo da energia renovável é irreversível: a geotermia (aproveitamento de águas quentes no interior da Terra); a força das águas fluviais, dos ventos e dos raios solares; a maremotricidade das ondas; a biomassa; a fusão nuclear e que tais. No entanto, o preço do petróleo é substancialmente politizado, notadamente na área dos exportadores e do cartel da OPEP.

Em meio ao embate tecnológico e científico ambiental, geopolítico e midiático, entre as fontes renováveis e fósseis (carvão inclusive), bailam as impotências das soluções supranacionais. Copenhague é o mais recente exemplo de esterilização dos diversos grupos G (2, 8, 20), ONU, OCDE e outros.

Outras propostas não se universalizam: o veio da educação, mediante o uso obrigatório de transportes coletivos; o limite da potência de motores de carros; reciclagem de resíduos; conservação, inclusive de água; restrição às temperaturas de refrigeração e de calefação. Enquanto o tempo passa, progridem alterações da natureza. Embora se discuta a contribuição da humanidade às mudanças climáticas, o ser humano não vem conseguindo tomar o destino em suas mãos. Pode muito bem ocorrer que a natureza aterrorize as nações e as ponha a agir.

Hoje, encampo a ideia do professor Eduardo Giannetti, de que os motores dos novos comportamentos humanos serão os PREÇOS! Todos os preços relativos de bens e serviços serão realinhados. Vide ensaios em prática entre populações como as da Dinamarca e da Alemanha, em que cidades pilotos emitem carbono zero (Aarhus, Dk), enquanto alemães escolhem pagar faturas de energia elétrica elevadas na compra de energia renovável.

Mediante a intervenção do Estado coonestado pelos seus cidadãos, há países que adotaram fontes limpas de energia. No Brasil, esta precepção demorou duas a três décadas em relação à Europa. Aqui, o envolvimento e comprometimento só germinaram em 2009, no recente leilão exclusivo de contratação de energia elétrica eólica. O governo reduziu o IPI das usinas; elevou o prazo de compra de 15 para 20 anos; criou mecanismos de transporte dos geradores até as redes básicas; introduziu um encargo (Energia de Reserva) pelo qual todos pagarão pela aposta estratégica do país. Assim, por meio de construções velozes (cerca de 18 meses cada) de fazendas geradoras de energia eólica, poderemos suportar atrasos em obras como Belo Monte, ao mesmo tempo driblando pressões de países vizinhos em interconexões energéticas. Quando não chove, venta. É uma dádiva se olharmos para a bacia do Rio São Francisco, cujos reservatórios acumularão água mesmo na estiagem, pois a energia do Nordeste se produzirá especialmente nos parques eólicos do Rio Grande do Norte e do Ceará. O incômodo atual dos preços se dissipará. Nem mesmo os preços de um bife ou um copo de água resistirão ao que se avizinha no planeta. Crise de água e crise energética são constantes tenazes a premer por mudanças.




 
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