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O preço da indefinição sobre as regras do jogo
 


| 13/01/2010 | Valor Econômico

Palavra do gestor:

    Ricardo Alves
    13/01/2010
 
A definição de regras claras é extremamente importante em qualquer investimento. Para um país, tal premissa tem relação direta com desenvolvimento econômico e social. É difícil imaginar a evolução de uma sociedade no longo prazo sem que regras claras sejam mantidas, pelo menos em sua essência, por várias gerações. As indefinições, por sua vez, atrasam, encarecem e freiam o desenvolvimento.

Desde que o governo de São Paulo tentou iniciar o processo de privatização da Cesp (interrompido por ausência de investidores em maio de 2008), um dos assuntos mais discutidos por especialistas do setor é a renovação das concessões das geradoras de energia.

Isso porque a Cesp, com cerca de dois terços de sua capacidade de geração vencendo até 2015, será a primeira empresa a ter de enfrentar as consequências dessa decisão. Outras empresas com ativos em geração de energia - como Cemig, Furnas e Chesf - também serão muito influenciadas por essa decisão que todos no setor elétrico esperam. E qual é o preço dessa falta de definição?

Para responder a pergunta, podemos comparar indicadores da Cesp aos da Geração Tietê, cujas concessões vencerão apenas em 2030. Portanto, a empresa possui uma previsibilidade de resultados muito maior. As duas são as maiores geradoras de energia do Estado de São Paulo.

O valor de mercado da Tietê, dividido pela geração de energia da empresa (EV/MWh), é cerca de 6 vezes. O mesmo indicador na Cesp é 3,1 vezes. Quase a metade. Por essa medida, em ordem de grandeza, a Cesp poderia aumentar muito seu valor com a definição das regras.

Tudo bem, você poderia argumentar que uma empresa é pública, outra é privada, e que a eficiência da Tietê é muito maior. A diferença nesse indicador, portanto, não deveria ser igual para as duas empresas. Mas ao analisarmos os números, não vemos uma diferença tão grande assim, já que a margem lajida da Cesp gira ao redor de 67% e da Tietê, em 82%. Uma diferença na casa de 20%. Ou seja, um ganho relativamente pequeno de produtividade na Cesp já diminuiria a diferença desse indicador.

E se as concessões forem renovadas pelo custo de R$ 65,00, que é o mínimo necessário para se manter as empresas, de acordo com os especialistas do setor? Nesse caso, nossos estudos apontam para um valor de R$ 31,00 por ação da Cesp, quase 50% a mais que o valor médio da cotação no segundo semestre de 2009, elevando-se o indicador EV/MWh a aproximadamente 4 vezes. Trata-se de um aumento bastante considerável.

É claro que nesses casos outros efeitos colaterais extremamente benéficos seriam percebidos para as empresas e os consumidores. Por exemplo, pela lei atual, as empresas de geração não podem vender energia sem lastro. Isso significa que as empresas que convivem com essa falta de definição podem fechar um número menor de contratos de longo prazo de fornecimento de energia aos clientes livres. No exemplo da Cesp, ela não pode vender energia dessas usinas após o 2015. Consequentemente, diminui-se a oferta após essa data, com efeito claro nos preços desse mercado. É a velha regra de oferta X demanda se fazendo valer.

Isso sem falar nos custos de financiamento, que cairiam com previsibilidade muito maior de seus fluxos de caixa. Isso aumentariam ainda mais seus "upsides".

E o que aconteceria em um cenário de não renovação das concessões? Antes de mais nada, isso implicaria em vender em leilões, por exemplo, todas as usinas conforme suas concessões forem vencendo. Alguém teria de investir nessas usinas, mas sem trazer um megawatt sequer de acréscimo energético ao sistema. Parece pouco inteligente usar tal alternativa em um país que precisa aumentar sua capacidade de geração de energia para suportar um crescimento econômico de longo prazo.

Fica claro, portanto, que o custo da indefinição é alto para as empresas e para o país, qualquer que seja a metodologia que utilizamos em nossas contas, com sinais claros em nosso cotidiano. É só se lembrar dos apagões de energia que o país enfrentou recentemente.

Em uma sociedade democrática, essas discussões e definições deveriam ocorrer em suas esferas institucionais, seguindo os trâmites legais e guiadas por critérios técnicos. Esse deveria ser o caminho a ser seguido. Antes que alguém apague a luz.

Ricardo Alves é sócio e gestor da Kinea Investimentos

E-mail: ricardo.alves@kinea.com.br

Este artigo reflete as opiniões do autor, e não do jornal Valor Econômico. O jornal não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações.





 
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